Depois de 25 anos de negociações, o aguardado acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) está prestes a viver um momento decisivo. A Comissão Europeia deve apresentar o texto nesta quarta-feira (3), abrindo caminho para o processo de aprovação no Parlamento Europeu e entre os governos nacionais do bloco.
A votação, no entanto, está longe de ser garantida. Para entrar em vigor, o acordo precisa do aval de 15 dos 27 países da UE, que representem ao menos 65% da população do bloco, além da aprovação parlamentar.
Um acordo histórico em números
Considerado pela Comissão Europeia como o maior acordo já firmado em termos de reduções tarifárias, ele promete abrir espaço para um novo fluxo de comércio entre dois blocos que juntos reúnem mais de 700 milhões de pessoas. Alemanha e Espanha estão entre os principais defensores, enxergando na parceria uma saída para reduzir perdas provocadas pelas tarifas dos EUA sob Donald Trump e, ao mesmo tempo, diminuir a dependência europeia da China, sobretudo em minerais estratégicos como o lítio, essencial para baterias e transição energética.
Desde a reeleição de Trump em 2024, a União Europeia intensificou sua estratégia de diversificação comercial, acelerando negociações com Índia, Indonésia e Emirados Árabes Unidos, além de fortalecer acordos já existentes com Reino Unido, Canadá e Japão. Nesse cenário, o Mercosul aparece como peça-chave.
França lidera a oposição
O maior obstáculo ao acordo vem de dentro da própria UE. A França, maior produtora de carne bovina do bloco, lidera a oposição, classificando o tratado como “inaceitável”. Agricultores franceses — e também de outros países — argumentam que a entrada de commodities sul-americanas a preços mais baixos, especialmente a carne bovina, colocaria em risco o setor agrícola europeu e não atenderia aos padrões de segurança alimentar e ambientais exigidos na Europa.
As críticas não param por aí. Grupos ambientalistas também rejeitam a proposta. A organização Friends of the Earth chegou a chamá-lo de “acordo destruidor do clima”, afirmando que poderia incentivar o desmatamento e a expansão da produção intensiva de commodities no Brasil e em outros países do Mercosul.
Onde o acordo pode travar
No Parlamento Europeu, Verdes e partidos da extrema direita já sinalizaram resistência. E mesmo entre os governos nacionais, não há consenso. Caso Itália e Polônia se alinhem à França, por exemplo, o acordo dificilmente alcançaria a maioria qualificada necessária.
O que está em jogo
Apesar das críticas, os defensores enxergam no tratado uma oportunidade única:
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Para a Europa: abrir um mercado promissor para automóveis, máquinas e produtos químicos, além de ampliar a exportação de queijos, vinhos e presuntos com tarifas reduzidas.
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Para o Mercosul: conquistar acesso preferencial a um dos maiores mercados do mundo, fortalecendo exportações agrícolas e ampliando sua presença global.
Mais do que comércio
O debate em torno do acordo UE–Mercosul mostra que ele vai muito além das tarifas. Trata-se de uma disputa que envolve geopolítica, meio ambiente, agricultura e identidade europeia. Enquanto uns o veem como oportunidade de modernização e integração, outros temem que represente riscos para agricultores e para as metas ambientais.
Se aprovado, o pacto poderá redefinir o lugar do Mercosul no comércio global e marcar uma nova fase nas relações entre Europa e América do Sul. Se rejeitado, será mais um capítulo na longa e conturbada história de negociações que já dura um quarto de século.